paris.py ou o livro dos softwares inúteis

August 2, 2013

uma criança com pele de silício e olhos da cor de cristal líquido veio até mim esta noite

e marejando sangue me ofereceu doces rosas de coltan.

da sua mão esquerda pendia uma coleira de par trançado

plugada ao crânio de um ciborgue possesso em forma de Cérbero

que, em binário, latia:

o quê

“paris.py ou o livro dos softwares inúteis” é um diário afetivo. um livro-software. poema-códigos. artesanato de bits. artefatos ciberpáticos. um conjunto de softwares inúteis. programas criados para funcionar em computadores e celulares obsoletos. memórias pessoais escritas para serem executadas em terminais de computadores. experimentos com poesias escrita em linguagem de programação – Python – cuja temática reflete pessoas, lugares e momentos que marcaram afetivamente minha vida durante um período de 6 meses que passei viajando, em 2012.

pt - projeto paris py

eu.py

por meio deles, busco me expressar subjetivamente explorando os principais elementos que compõem um software – explorados ora separadamente, ora através de relações:

  • seu código fonte – por meio de uma apropriação lírica da semântica e da sintaxe objetivas e unilaterais da linguagem de programação;
  • sua lógica de funcionamento – por meio de uma apropriação lírica da lógica de linguagem de programação, como algoritmos e estruturas de dados utilizadas;
  • seu resultado pós-execução – por meio do resultado criado a partir da execução final do programa em um computador;

contexto

1 – a angústia: lógica espetacular que supervaloriza a ciência, como detentora da verdade, e a tecnologia, como sua filha prodígio. falso manto quente de números que tenta em vão acalentar um espírito humano que definha. internet. gadgets. iqualquercoisa. redes sociais. até mesmo caminhando no centro da cidade. panfletos. conversas. outdoors. por todos os lados sou bombardeado por novos artefatos tecnológicos, cada vez mais poderosos e onipresentes, criados por uma pequena elite de especialistas que apenas reproduzem a perspectiva dilacerante que reduz o humano a equações e dados estatísticos. até que ponto estamos deixando essa lógica moldar nossas relações?

2 – a alucinação: o casal que se senta a mesa e se esconde atrás da parede de seus smartphones. a visão do concerto por detrás do brilho pálido do lcd de uma câmera digital. náufrago com gps, isolado num mar de gente que caminha ao seu lado na rua. google que apunhala em um golpe seco a discussão sem fim na mesa de bar. pra onde estamos indo? estamos institucionalizando nossa repulsa ao velho, ao agora, ao afeto, ao incerto, ao erro e à exceção – tudo é ruído fétido, que não colabora com a mediana?

#-*- coding: utf-8 -*-

'''
UMA CERTA INDECISÃO
'''

from random import random

def fica():
	print "nao fico?"
	return nao_fica()

def nao_fica():
	print "fico?"
	return fica()

if __name__ == "__main__":
	if (random() > 0.5):
		fica()
	else:
		nao_fica()

3 – o grito: na visão utilitarista, um “software inútil”. na minha visão, um recorte sensível daquilo que me faz me sentir vivo. uma provocação, que propõe um apropriar-se tecnologicamente pautado pela adoção de uma nova postura – que aceite os paradoxos, o incerto, as contradições e a insegurança como parte inerente a nós mesmos e que portanto devem ser “refletidas” nas nossas criações – com o objetivo de propiciar o surgimento de artefatos tecnológicos mais humanos (sem nunca ser homem ou mulher). que “choram, cagam, fazem sexo e sentem dor”… o esgoto da rua no lugar de laboratórios esterilizados. calculadora que insiste em dizer que 1 mais 1 são 3. “sangue no silício”.

a exposição

final de outubro de 2012, Paris. casa de amigos, carinhosamente apelidada de maison des solitaires. final de um ciclo e início de um outro ainda desconhecido. os poemas-códigos foram impressos, espalhados pelo local – junto com fotos de Bruno Rodrigues, espelho imagético deste trabalho. enchemos a cara. no fim, poemas foram dados como lembrança a pessoas que marcaram a minha vida e que também serviram de temática para este trabalho. com o espírito despido, chorei. era parte da minha alma que estava ali, nua, exposta pra quem quisesse ver. códigos de carne ao invés de flores de plástico.

portugues

software convite para a exposição

fotos daquela noite estão disponíveis no flickr:


andamento

a execução passo a passo dos poemas-códigos pode ser acompanhada nos links abaixo (versões ligeiramente modificadas para rodar via web):

  1. A_Turma_do_Trabalho.py
  2. Babilonia.py
  3. Buarque_e_Babi.py
  4. Centre_Hospitalier_dOrsay_Secteur_Palaiseau.py
  5. Domingo_de_manha_(velib).py
  6. Eu.py
  7. Hoje_eu_trago_a_besta_dentro_de_mim.py
  8. Homem_Sem_Face_na_Multidao.py
  9. Introducao.py
  10. La_Maison_des_Solitaires.py
  11. Mademoiselle_Papa.py
  12. Minha_balofilda_e_eu_no_Gtalk.py
  13. Omar_is_back.py
  14. Palavra.py
  15. Sangue_no_silicio.py
  16. Software_Convite.py
  17. Uma_certa_indecisao.py
  18. Velho_Benzina.py

o projeto, ainda em andamento, pode ser acompanhado-reapropriado pelo github:

https://github.com/jeraman/Paris.py

quem sabe depois uma versão impressa, encadernada, dessa história toda?

agradecimentos

dito isso, sumiram no breu criança e criatura

e da aparição só me restou o suor no rosto e uma questão:

amigos,

qual o nome deste livro?

referências & inspirações

[1] “ciberpatia”, texto escrito a muitas mãos (até onde alcança minha memória: Giuliano Obici, Felipe Ribeiro, Jarbas Jácome, Ricardo Brazileiro, Cristiano Rosa, Daniel Dantas…) no verão de 2010, na casa de Felipe Ribeiro – http://filosonias.blogspot.com.br/2011/08/ciberpatia.html

[2] rede metareciclagem – http://rede.metareciclagem.org/

[3]  poèmes ALGOL, por Noël Arnaud – http://books.google.com.br/books/about/Po%C3%A8mes_ALGOL.html?id=e59aGwAACAAJ&redir_esc=y

[4] virtual poetry Project – http://ojs.gc.cuny.edu/index.php/VPP/index

[5] code {poems}, por Ishac Bertran – http://code-poems.com/

[6] experimentos de Ricardo Fabbri e Lab Macambira – http://pontaopad.me/desorganismos

[7] microcodes, por Pall Thayer http://pallit.lhi.is/microcodes/

[6] biennale.py, por 0100101110101101.ORG, em colaboração com epidemiC – http://www.0100101110101101.org/home/biennale_py/

[7] conversas de bar – http://1.bp.blogspot.com/-7sVbvLwg4Ys/UBHc9IvJShI/AAAAAAAAAkA/Zxkw6NVioU0/s400/CN-ConversaBar.jpg


publicações

July 26, 2013

compartilho neste post publicações científicas em que estive envolvido:

2013

Título: Sketchument: Empowering users to build DMIs through prototyping

Por: Filipe Calegario, Jeronimo Barbosa, Geber Ramalho, Giordano Cabral e Gabriel Finch

Resumo: New interface artefacts are changing the way we interact with machines, and this is particularly important for the musical domain. Conversely, the growing do-it-yourself (DIY) culture is subverting the manufacturer–consumer model. Regarding music, software such as Pure Data and Max/MSP allows users to build their own interactive systems. These factors contribute to the emergence of new digital musical instruments (DMI). However, DMI creation still requires a strong technical background. Based on the importance of prototyping in the process of designing things, this paper presents the Sketchument, an environment devoted to help non-technical users to easily prototype DMIs, using multiple input modes and allowing the integration to other useful technologies. From a lo-fi paper prototype, to functional ones, passing through movies, questionnaires, interviews, Sketchument has been developed following the same prototyping philosophy we intend to propose to its users. The cyclic process of design–implementation-evaluation has produced valuable feedback from potential users, which has been very useful to back design choices and to push modifications.

Publicado em: Organised Sound / Volume 18 / Special Issue 03 / December 2013, pp 314 – 327.

Título: Using drawings and a guitar pedal to create one-man-band music: the Illusio

Por: Jeronimo Barbosa, Filipe Calegario, Geber Ramalho, Veronica Teichrieb e Giordano Cabral

Resumo: This paper presents a new digital musical instrument, the Illusio, based on an augmented multi-touch interface that combines a traditional multi-touch surface and a device similar to a guitar pedal. Illusio allows users to perform by drawing and by associating the sketches with live loops. These loops are manipulated based on a concept called hierarchical live looping, which extends traditional live looping through the use of a musical tree, in which any music operation applied to a node affects all its children nodes.

Publicado em: 14º Simpósio Brasileiro de Computação Musical, 2013, Brasília, Brasil.

Título: Illusio: A Drawing-Based Digital Musical Instrument

Por: Jeronimo Barbosa, Filipe Calegario, Geber Ramalho, Veronica Teichrieb e Giordano Cabral

Resumo: This paper presents an innovative digital musical instrument, the Illusio, based on an augmented multi-touch interface that combines a traditional multi-touch surface and a device similar to a guitar pedal. Illusio allows users to perform by drawing and by associating the sketches with live loops. These loops are manipulated based on a concept called hierarchical live looping, which extends traditional live looping through the use of a musical tree, in which any music operation applied to a given node affects all its children nodes. Finally, we evaluate the instrument considering the performer and the audience, which are two of the most important stakeholders involved in the use, conception, and perception of a musical device. The results achieved are encouraging and led to useful insights about how to improve instrument features, performance and usability.

Publicado em: NIME’13 – Proceedings of the 2013 conference on New Interfaces for Musical Expression, 2013, Daejeon, Coréia do Sul.

2012

Título: Considering Audience’s View Towards an Evaluation Methodology for Digital Musical Instruments

Por: Jerônimo Barbosa, Filipe Calegario, Verônica Teichrieb, Geber Ramalho, Patrick McGlynn

Resumo: The authors propose the development of a more complete Digital Music Instrument (DMI) evaluation methodology, which provides structured tools for the incremental development of prototypes based on user feedback. This paper emphasizes an important but often ignored stakeholder present in the context of musical performance: the audience. We demonstrate the practical application of an audience focused methodology through a case study (‘Illusio’), discuss the obtained results and possible improvements for future works.

Publicado em: NIME’12 – Proceedings of the 2012 conference on New Interfaces for Musical Expression, 2012, Ann Arbor, Estados Unidos.

2011

Título: Towards an evaluation methodology for digital musical instruments considering performer s view: a case study

Por: Jerônimo Barbosa, Filipe Calegario, Francisco Magalhães, Giordano Cabral, Veronica Teichrieb, Geber Ramalho

Resumo: This paper presents an innovative digital musical instrument, the Illusio, based on an augmented multi-touch interface that combines a traditional multi-touch surface and a device similar to a guitar pedal. Illusio allows users to perform by drawing and by associating the sketches with live loops. These loops are manipulated based on a concept called hierarchical live looping, which extends traditional live looping through the use of a musical tree, in which any music operation applied to a given node affects all its children nodes. Finally, we evaluate the instrument considering the performer and the audience, which are two of the most important stakeholders involved in the use, conception, and perception of a musical device. The results achieved are encouraging and led to useful insights about how to improve instrument features, performance and usability.

Publicado em: 13º Simpósio Brasileiro de Computação Musical, 2011, Vitória, Brasil.


dissertação de mestrado – Um framework para avaliação da experiência de uso de Instrumentos Musicais Digitais

July 26, 2013

acabou. 2 anos e alguns meses depois, termino meu mestrado. compartilho com vocês a versão da final entregue ontem à biblioteca central da UFPE.

título: “Um framework para avaliação da experiência de uso de Instrumentos Musicais Digitais”.

resumo: “Devido à popularização de novas interfaces de interação e novos processos de síntese sonora, muito tem sido estudado e desenvolvido no que diz respeito à construção de Instrumentos Musicais Digitais (DMIs) nos últimos anos – área conhecida como Luteria Digital.  DMIs podem ser definidos como dispositivos que possuem uma unidade de interface de controle e uma unidade de geração sonora, ambos conectados através de uma estratégia de mapeamento. Ao contrário dos instrumentos acústicos, cuja produção do som depende das características do material e do arranjo físico de suas partes, o instrumento digital permite uma maior liberdade na sua construção, já que rompe com as tradicionais restrições físicas de causa e efeito. Essa liberdade acarretou o surgimento de uma grande diversidade de novos instrumentos que trouxeram junto com eles um novo desafio: como avaliar sistemas tão diferentes em um domínio tão subjetivo como a música? Esse é o contexto deste trabalho. Nele propomos um framework para avaliação de instrumentos musicais digitais focando na sua experiência de uso. Com isso, esperamos auxiliar o processo de design iterativo de novos DMIs, tendo em vista a opinião de seu stakeholder mais importante; o performer. Para tanto, melhoramos iterativamente o framework no decorrer de ciclos de experimentos (aplicados a DMIs oriundos de contextos diferentes), cada um provendo críticas e insights para ciclos posteriores. Ao final chegamos a um resultado que, apesar de ainda genérico, se aproxima bastante do que entendemos ser uma boa metodologia de avaliação de DMIs – nos ajudando a compreender melhor a natureza da relação performer-DMI e sua importância para o desenvolvimento da Luteria Digital”.

palavras-chaves: “Computação musical, Instrumento Musical Digital, DMI, Luteria Digital, sistemas musicais interativos, frameworks conceituais, metodologias de avaliação, Design de Interação, User Experience, HCI”.

a dissertação final pode ser encontrada aqui:

dissertacao-final-jbcj-digital.pdf

os slides utilizados na defesa, que aconteceu no dia 23/05/2013, estão disponíveis aqui:

depois desses dois anos de pausa, espero aos poucos ir retomando as coisas aqui no blog.

axé!


mais sobre o illusio…

September 2, 2011

ainda sobre o projeto que apresentei no último post, o illusio, posto por aqui o vídeo acima.

ele foi gravado no Simpósio Arte Cibernética, que aconteceu no dia 1º de Julho, no Itaú Cultural, em São Paulo.

a apresentação utilizada pode ser conferida logo abaixo:


projeto illusio

June 27, 2011

o illusio é um projeto de instrumento musical digital que permite o controle de loops gravados em tempo-real, no momento da performance, através de uma performance lúdica e colaborativa baseada no relacionamento entre desenhos e sons.

para tanto, o projeto mescla o uso de tecnologias multitoques – construída a partir de canos PVC e fitas adesivas – ao conceito de pedais de guitarra – construída a partir de um teclado usb modificado – sob uma perpectiva DIY de baixo custo.

o projeto também segue a filosofia livre: todo o conhecimento técnico que permitiu sua construção, seja de hardware (como construir uma mesa multitoque base para o projeto utilizando caixas de papelão e webcams comuns) seja de software (código-fonte do programa) estará disponível para reuso, segundo uma licença não-comercial.

uma performance demonstrativa utilizando instrumento pode ser vista no vídeo abaixo. é importante ressaltar que o mesmo foi gravado apenas com o objetivo de ilustrar possibilidades da ferramenta: não sou músico profissional.

hardware

o equipamento de hardware básico usados pelo projeto é o pedal e a mesa.

o pedal foi construído a partir do uso de um teclado USB comum modificado, que pode ser facilmente encontrado em lojas pelo custo de aproximadamente 30 Reais, a partir da idéia utilizada na Afrobeat Machine de Jarbas Jácome. dessa forma, suas teclas foram todas retiradas, com exceção de 3 delas localizadas em pontos distantes (a tecla Shift, a Backspace e a Enter), de maneira que pudesse ser facilmente utilizadas com os pés, como mostra a figura abaixo.

construída coletivamente pelo wouwlabs em 2008 (dá-lhe Calega! dá-lhe Jesus! dá-lhe Aninha!), a mesa foi construída baseada em uma técnica conhecida como Frustrated Total Internal Reflection (FTIR), principalmente devido a sua simplicidade, baixo custo de produção e  abundância de material, possuindo com tracker o Community Core Vision.

para sua construção, contamos com grande apoio do Nuigroup, que forneceu todo o conhecimento técnico necessário através de documentação e o amparo de uma comunidade extremamente ativa.

estrutura da mesa. não, o tênis velho jogado não faz parte do trabalho(?)

apesar de ter sido a abordagem escolhida, é perfeitamente viável trocar a mesa utilizada como dispositivo de entrada por outras plataformas multitoques, a exemplo de iPads, Androids e caixas de papelão (a ser utilizada numa próxima versão extremamente baixo custo)…

software

o software base para o illusio pode ser dividido em dois módulos; a interface, implementado em Processing, e o looper, implementado em Openframeworks/C++, utilizando o protocolo Open Sound Control como ponte de comunicação entre eles. seu código fonte estará disponível em breve no Github.


o sistema é baseado nos conceitos de:

  • Formas – Elemento básico a partir do qual todo o instrumento funciona. Uma forma é um desenho, um rabisco, criado pelo usuário na superfície e é responsável por armazenar o loop a ser gravado;
  • Mockups – Um subtipo de forma, que funciona como um container, armazenando um conjunto de outras formas dentro dele;
  • Edição – Funcionalidade que permite ao usuário abrir e fechar formas (e mockups) com o objetivo de alterar seu fluxo sonoro;
  • Modo keyboard – Funcionalidade que permite às formas funcionarem como um piano, que libera um som (seu loop) quando tocado.

a seguir, algumas imagens do projeto:

agradecimentos

este projeto foi desenvolvido com o apoio do Rumos Itaú Cultural Arte Cibernética 2009, sem o qual a coisa não teria acontecido.

a propósito, este projeto será apresentado pela primeira vez ao público no Simpósio Arte Cibernética, que acontecerá no próximo 1º de Julho em São Paulo, no Itaú Cultural.

além disso, merecem agradecimentos todos aqueles que de alguma forma colaboraram com este projeto, em especial a Kamilla de Souza (conselheira e responsável pelas filmagens), Filipe Calegario (monstro pantanoso que deu uma força enorme em vários aspectos técnicos desse projeto), Ricardo Brazileiro (sem ele, os filmes simplesmente não teriam acontecido!), Jarbas Jácome e Geber Ramalho (monstros inspiradores, mentores intelectuais) e ao Wouwlabs como um todo (por nosso trabalho com a mesa multitoque)…

a todos, muito obrigado!


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